A Mulher na Empresa Familiar

Pesquisas mundiais sobre mulheres em empresas familiares evidenciam a naturalidade com que elas assumem cargos estratégicos.

Na Serra Gaúcha não é diferente. Em 2017, o Instituto de Desenvolvimento da Empresa Familiar (IDEF) realizou um estudo que, dentre outros dados sobre famílias empresárias da região, apontou que 62% das 103 empresas entrevistadas têm mulheres em cargos de gestão, muitas delas já assumindo os negócios como sucessoras de seus pais.

Com sede em Caxias do Sul (RS), o IDEF orienta e capacita famílias empresárias sobre os temas de Governança e Sucessão, proporcionando maior autonomia e redução da vulnerabilidade nos momentos de transição geracional.

Neste ano, o IDEF concluiu outra pesquisa, desta vez específica sobre “A Mulher na Empresa Familiar” com o objetivo de entender a participação destas mulheres na construção da Governança Familiar e do Processo Sucessório. “A pesquisa resgatou a importância das mulheres nos papéis de mães, esposas e filhas para a estrutura familiar e para a perpetuação do negócio.

É possível observar que por trás de um grande negócio tem sempre uma grande família e uma grande mulher”, reflete Hana Witt, pesquisadora e fundadora do IDEF.
De fevereiro a abril, por meio de questionário online a pesquisa ouviu 82 mulheres, entre esposas e filhas de fundadores de empresas familiares de Caxias do Sul e região.

Além disso, entrevistas presenciais foram realizadas para resgatar histórias e compartilhar aprendizados, buscando compreender com mais profundidade os dilemas dessas personagens importantes das empresas familiares da Serra Gaúcha.

A SUCESSÃO – No caso das herdeiras, o estudo revela que 73% das entrevistadas trabalham nas empresas de seus pais há mais de oito anos e 79% consideram que essa ocupação está alinhada ao propósito profissional.

A pesquisa do IDEF constatou que 52% das herdeiras têm a intenção de assumir os negócios dos pais, ainda que 72% delas não tenham um plano de carreira estruturado para que ocorra o processo de sucessão.

Além disso, 51% das filhas entrevistadas tiveram outra experiência profissional antes de entrar para a empresa familiar.

No âmbito nacional, pesquisas em grandes empresas brasileiras revelam que 73% dos sucessores têm outras experiências profissionais antes de trabalharem com a família, uma prática recomendada pelos especialistas em sucessão.

Para Hana Witt, especialista em Governança Familiar, o maior desafio de uma herdeira é justamente descobrir seu verdadeiro propósito e suas expectativas profissionais, não se deixando levar pelas emoções e pelos papéis que possam ser impostos pela família no âmbito da empresa. “Algumas delas assumem os negócios da família pelo companheirismo e cuidado que têm com seus pais, e pela responsabilidade com o legado, mas com o passar do tempo se percebem distantes de seu propósito pessoal ou de suas verdadeiras habilidades profissionais”.

Hana Witt observa, ainda, que a questão do gênero na empresa familiar fica em segundo plano, já que o contexto é diferente em relação a uma mulher executiva que ocupa um cargo numa empresa que não pertence a sua família. “No negócio familiar, existem vários casos onde a filha é o braço forte do fundador, pois já tem noções e ensinamentos de empreendedorismo de dentro de casa ao seguir os passos do pai.

Então prevalece a competência, a confiança e o comportamento alinhado aos valores e princípios do fundador e da empresa”. Nesse sentido, 61% das entrevistadas pelo estudo do IDEF possuem MBA, o que potencializa o desempenho de seus diferentes papéis de forma legítima e responsável.

EDUCAR E ORIENTAR OS FILHOS
Na região da Serra Gaúcha, que é essencialmente de empresa familiar, a posição das mulheres é muito estratégica não apenas dentro das famílias, mas nas empresas.

A pesquisa mostrou que apesar de 70% das mães terem um negócio próprio, ainda assim, 55% delas desempenham alguma atividade na empresa do marido. Contudo, a grande maioria, 85% das entrevistadas, tiveram outra experiência profissional antes de ingressarem no negócio familiar.
Quando o assunto é sucessão, muitas vezes os filhos procuram a mãe, e não o pai, para falar sobre a carreira.

Foi possível observar que os papéis essenciais da mãe na transmissão de valores aos filhos, no acompanhamento na educação e na carreira deles, e na mediação de conflitos estão presentes no dia a dia da maioria das entrevistadas, já que 83% das mães intervêm nos momentos de conflito quando o assunto está relacionado aos negócios, evitando possíveis desentendimentos entre o marido e os filhos.
A pesquisa também questionou as mães quanto à profissão dos filhos, sendo que 55% delas participam do planejamento de suas carreiras, mas não chegam a interferir de forma mais direta em suas escolhas profissionais. “Educamos os nossos filhos, mas sem aquela cobrança de tu vai ser isso ou aquilo.

Sempre estávamos atentos a eles, não deixando faltar aula, orientando para que fossem responsáveis desde pequenos, assumindo seus erros. Mas eles ficaram livres para escolher a profissão”, recorda a dona de casa Jucélia Velho, 68 anos, esposa do fundador da Envel Razão Gestão Contábil, Ernani Velho, que conduz os negócios da família com os três filhos, ligados às áreas da administração, engenharia civil e arquitetura.
Os resultados apontam, ainda, que 71% das mães ouvidas procuram discutir sobre as formas de gerir o patrimônio da família, junto ao marido e aos filhos, e 93% delas conhecem os planos futuros da empresa. Para as mães que não trabalham na empresa, que conforme o estudo do IDEF representam 45% das entrevistadas, é essencial que o fundador compartilhe informações. “Mesmo não tendo uma participação direta nos negócios, ela é uma catalizadora de emoções, possui uma visão sistêmica da família e pode contribuir para a tomada de decisões importantes, como a escolha do sucessor ou o momento de transição de comando dos negócios.

É ela quem, muitas vezes, ouve as expectativas e desejos dos sucessores e dos sucedidos”, conclui Hana Witt.

Por Gabriela Marcon

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